Quando, em 2014, o sargaço se revelou um problema para o Caribe mexicano, uma série de reuniões foi organizada no hotel Paraíso de La Bonita, em Puerto Morelos, de propriedade do arquiteto Carlos Gosselin, líder dos hoteleiros da Riviera Maya, um dos destinos de praia mais conhecidos da América Latina. Nesse espaço luxuoso, os primeiros a comparecerem foram os setores interessados em resolver a crise, principalmente os prestadores de serviços. Nesse grupo, uma cientista também estava presente: Rosa Rodríguez, bióloga da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM).
Rosa lembra que essas reuniões tinham um toque especial, pois eram realizadas em um hotel de luxo e Gosselin era um ótimo anfitrião: servia lanches e bebidas. Em uma dessas ocasiões, lembra Rodriguez, o anfitrião ofereceu uma bandeja de muffins. Depois que todos provaram, Gosselin perguntou se gostaram e revelou que eram feitos de sargaço. A degustação-surpresa foi bem recebida pelos convidados. No entanto, Rosa, um pouco envergonhada, explicou ao anfitrião que o sargaço continha altos níveis de arsênico, sendo muito tóxico para a saúde humana. “Não, isso não está certo”, ela lembra de ter dito cuidadosamente, ciente de que Gosselin não tinha conhecimento dessa informação.

Rosa Rodríguez, bióloga da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM)
Foto: Octavio Aburto

Chegando ao paraíso
Em 1989, Rosa Rodriguez chegou a um paraíso sem perturbações. Tinha vindo da Cidade do México, atraída pelos impactos do furacão Gilberto nos recifes de coral, tema de sua tese de graduação. O que encontrou foi uma paisagem que, em suas palavras, era um sonho: “O recife ainda era muito bonito. A água era clara. Você tinha o mangue, a selva, os cenotes [sistema de cavernas e cursos d'água], as praias. Você podia ir à praia no domingo. Não se via ninguém. Era maravilhoso”.
Mais de três décadas depois, de frente para o azul-turquesa do Caribe mexicano e com um tapete marrom de sargaço quebrando a brancura da areia atrás de si, a pesquisadora do Instituto de Ciências Marinhas e Limnologia da UNAM reflete sobre o fenômeno que, para ela, é uma curiosidade científica. Em 2014, essa macroalga marrom começou a chegar em massa às costas de Quintana Roo. “Desde o início, eu sabia que isso seria um problema”, lembra.
A pesquisa de Rosa levou-a a descobrir que o fenômeno vinha ocorrendo no oeste do Caribe desde 2011. Com essa informação, ela escreveu um boletim para as redes sociais e jornais e lembra como esse documento informativo a posicionou como convidada regular em reuniões com hoteleiros, o governo, pescadores e responsáveis por áreas protegidas. “Na terra dos cegos, o caolho é rei”, ela ri, lembrando que estava apenas começando a fazer perguntas sobre o fenômeno e já era considerada uma ‘especialista’ pela comunidade local.
Essas reuniões renderam frutos no Protocolo de Puerto Morelos, um documento que pretendia delinear uma estratégia para mitigar a ressurgência. Mas então veio 2016, um ano que interrompeu a tendência de invasões maciças de sargaço na costa mexicana, e o otimismo desativou os alarmes. Acreditava-se que a experiência anterior havia sido uma anomalia, um susto passageiro.

Foto: Octavio Aburto
O pior ano

Essa ilusão terminou em 2018. O ano marcou um antes e um depois na história do sargaço no Caribe mexicano, atingindo “proporções monumentais”, diz Rosa Rodríguez. De acordo com o Sargassum Information Hub, em certas áreas os volumes da macroalga chegaram a dois metros cúbicos por metro linear de praia. A crise foi tão grave que levou o governo estadual a emitir a primeira declaração de emergência.
Para o setor de turismo, acostumado a operar em um ambiente paradisíaco, as invasões que se seguiram a partir daquele ano foram devastadoras e marcaram uma nova era em seu modelo de negócios. Desde então, a cada temporada, tradicionalmente de abril a setembro, embora com grandes irregularidades em sua frequência, as praias brancas ficam repletas de montanhas malcheirosas, escuras e repletas de insetos, que desencorajam os turistas a se aproximarem do mar.
Limpar a sujeira é uma despesa enorme e um item fixo nos orçamentos anuais dos hotéis. De acordo com um estudo realizado por Rosa Rodriguez e seus colegas, o custo da limpeza do sargaço em um quilômetro de praia, por ano, pode chegar a um milhão de dólares. Isso inclui o maquinário, sua manutenção e os salários dos trabalhadores. “Remover um metro cúbico de sargaço custa US$ 27, e há praias que recebem até 40.000 metros cúbicos por quilômetro ao ano”, diz ela.
Mas esse é um investimento justificado. De acordo com dados do Ministério do Turismo de Quintana Roo, somente em 2023, mais de 21 milhões de turistas foram recebidos, deixando uma receita econômica de 20,58 bilhões de dólares. Visitantes nacionais e estrangeiros, que não parecem se assustar com o sargaço, pois sempre encontram algo para fazer na região, como visitar um sítio arqueológico, um parque temático ou passar o dia bebendo à beira da piscina. “Muitos hotéis têm atividades de lazer, como happy hour, aulas de zumba ou jogos de vôlei, com animadores de boa aparência ou garotas bonitas. Assim, as pessoas passam mais tempo nas piscinas e isso não as afeta [o sargaço]”, diz Rodríguez.
No entanto, o mesmo não se pode dizer sobre o meio ambiente. A chegada do sargaço transformou a dinâmica costeira, gerando danos profundos, diz Rodríguez. O simples ato de levantar as algas marinhas com maquinário pesado causa grave erosão nas praias. Além disso, a decomposição do sargaço libera compostos tóxicos que danificam os corais e outros organismos bentônicos.
Ouro verde?

Apesar da magnitude do problema, Rosa e outros cientistas concordam que é possível se adaptar e transformar o sargaço em uma oportunidade. Assim como os muffins do arquiteto Carlos Gosselin procuraram aproveitar os possíveis benefícios nutricionais do sargaço (Rosa afirma que ele tem nutrientes e todos os aminoácidos, o que nenhuma planta terrestre tem. Além disso, contém proteínas e lipídios), outros destacaram seu potencial como matéria-prima para a produção de tijolos, fertilizantes e biocombustíveis. Ele também contém compostos bioativos com propriedades antivirais e antibacterianas, que poderiam ter aplicações farmacêuticas. Esses usos potenciais do sargaço oferecem um vislumbre de esperança para sua exploração futura.
Mas...
A grande maré de macroalgas também funciona como uma grande vassoura marinha, varrendo tudo o que encontra no oceano e depositando esse conteúdo nas margens do Caribe, como se dissesse à humanidade: “Aqui está toda a sua sujeira”, diz Rodriguez.
Entre os poluentes arrastados em seu rastro está o arsênico, um elemento altamente tóxico à saúde humana. Esse metalóide pode ter várias origens, como erupções vulcânicas, produtos químicos usados na agricultura, mineração, podendo até chegar ao mar por meio da atmosfera. O coquetel tóxico é complementado pela presença de cádmio, chumbo, cromo e manganês, dependendo da rota percorrida no mar. Esses metais, juntamente com outros poluentes, como microplásticos, pesticidas e hidrocarbonetos que viajam nas macroalgas, representam uma verdadeira ameaça tanto para a saúde humana quanto para o ecossistema.
Rosa não esconde sua frustração ao falar sobre o que significaram todos esses anos de luta pela proteção do meio ambiente. "É muito deprimente o que você vê, não apenas o sargaço, mas a deterioração dos recifes e das praias começou há décadas”. Ao que Roberto Rojo responde com um apelo à sociedade: “Temos que acordar. Temos que agir agora, porque estamos perdendo o paraíso. Ele está escorregando por entre nossos dedos como areia”, diz o biólogo, fundador do projeto de ciência cidadã “Cenotes Urbanos”.
O sargaço, que representou um ponto de virada profissional para Rosa Rodríguez - posicionando-a como especialista mundial e tornando-a participante das reuniões de mais alto nível no México - é para ela “a cereja do bolo” da decadência ambiental vivida no Caribe mexicano. A compreensão do impacto sobre os recifes, que a levou em sua juventude a viver em frente a esse mar, agora se tornou uma triste realidade, em que as gigantescas marés de algas apenas aumentam os impactos que já devastaram os ecossistemas de corais e as praias. “É triste ver como décadas de trabalho em educação ambiental, regulamentação e conservação parecem insuficientes diante da magnitude dos problemas, deixando uma região que já foi um paraíso natural à beira do colapso".