Já faz quase um ano que o “mato” virou o barco do pescador artesanal Francisco Neto, no litoral do Amapá, na costa do Parque Cabo Orange. “Mato” é como é conhecido localmente o sargaço, é uma alga que se tornou uma dor de cabeça para os pescadores artesanais do extremo norte do país.
Era mais uma jornada normal de trabalho para Francisco, 25 anos. A sua rotina é passar 20 dias “fora”, no mar. O barco – pequeno, de madeira – já estava na área há 12 dias. No final da tarde, cerca das 17h, Francisco e seus quatro colegas foram surpreendidos pelo sargaço.
Os pescadores trabalham com redes de emalhe, para garantir o pescado para suas famílias e para vendas locais. Enquanto puxavam a armadilha, sentiram o peso do mato vindo junto, e aquilo não parecia ter fim. Quatro pescadores seguravam a rede, cada um em uma ponta, enquanto o mar agitado seguia seu fluxo. Inexperientes com talsituação, mesmo percebendo que o sargaço tinha enrolado todo, acharam que conseguiriam recuperar a rede e continuaram a puxar até que a alga preencheu a superfície da embarcação. "Veio umas seis toneladas de mato na rede", estima Francisco.
O barco tinha capacidade para carregar até seis toneladas de gelo com peixe, mas desde que bem distribuídas no porão. O problema, neste caso, é que o sargaço estava todo no convés, na parte superior, o que causou um desequilíbrio. Por volta das 19h, eles decidiram voltar a terra e, ao tentar acelerar um pouco, de repente o peso do sargaço fez o barco virar. "Não deu tempo nem de chamar ninguém no rádio [para pedir ajuda]", diz Francisco.
Pescador artesanal Francisco Neto

Francisco e seu pai, Valmir Mendonça
Foto: Davi Marworno
O grupo ficou no mar, à deriva, segurando-se no barco virado, somente seguindo o movimento da maré e na esperança de aparecer alguém para socorrer. Chegou a madrugada e nada. O frio aumentava, assim como o medo. Somente por volta das 5h da manhã foi que avistaram barcos mais ao longe e dois tripulantes nadaram em sua direção para pedir socorro.
Apesar do drama de uma noite inteira no mar, o acidente não feriu ninguém. Mas os pescadores perderam toda a carga de trabalho dos 12 dias, além da rede, do rádio, do navegador e de tudo o mais que estava dentro da embarcação, inclusive os celulares pessoais de cada um. Francisco estima um prejuízo total de R$ 40 mil. Contudo, o que aquele momento mais traz à memória é o enorme susto por que passaram. “O pensamento que veio logo na cabeça foi morte, né? Não tem como não pensar nisso. Pedi a Deus para que a gente não morresse ali, pensei na minha família, bateu um nervosismo muito grande. Um outro rapaz que conversou comigo e me acalmou mais", declara. “Se aparecer esse mato de novo, agora já sabemos que é melhor cortar logo a rede e seguir em frente", conclui Francisco.
O dono da embarcação é seu pai, Valmir Mendonça, 53 anos. Apesar de ter outro barco, que tem concentrado todo o trabalho desde o naufrágio, até hoje os danos do acidente não foram recuperados. “Foi muito complicado, sabe? Agora que estou me planejando para conseguir uma rede, fiz um empréstimo, passei uma tinta no barco", lamenta Valmir.
O que aconteceu com eles também se repetiu com outros pescadores da região, recordam. "Não tinha [sargaço] antes, mas agora quantos barcos já viraram por causa disso? Já vi barco grande, bem grande mesmo, perder a rede por causa desse mato. Ele entrelaça de uma forma que depois não tem mais como usar", descreve.
Os pescadores dizem que não sabem exatamente de onde vem ou o que provoca essa proliferação da alga, mas que já faz pelo menos quatro anos que começou a aparecer e causar complicações, especialmente na época de chuvas, como em março e abril.
As razões da proliferação do sargaço no Atlântico, entre o Golfo do México e a África Ocidental, são ainda incertas. Mas a própria Amazônia pode estar contribuindo para o problema.
É o que sugere um estudo publicado em 2022 por um grupo de pesquisadores de três instituições de pesquisa brasileiras. Os cientistas passaram cerca de 11 meses coletando amostras na Plataforma Continental Amazônica, parte do oceano que vai da margem do continente até a profundidade de aproximadamente 200 metros. O estudo possibilitou ter uma amostragem dos componentes presentes na água durante as diferentes épocas do ano.
As conclusões apontam para uma ligação entre a expansão do sargaço e a concentração de nitrogênio na água. O nitrogênio é um dos nutrientes dos quais o sargaço se alimenta. Uma das autoras da pesquisa, Carolina Cidon Mascarenhas, doutoranda da Universidade Federal do Pará (UFPA), explica que o aumento do elemento na região pode ser justificado pela intensificação de atividades humanas, cujos efeitos desencadeiam nos rios. “Percebemos que, entre 2008 e 2018, houve um aumento do desmatamento na região, para destinar áreas à agricultura e à pecuária. Isso contribuiu para o aumento de nitrogênio, que vai parar na plataforma continental", descreve.

Soma-se a esse aspecto o uso de fertilizantes, que também são compostos por nitrogênio. Sem a barreira natural da vegetação, quando chove, esse nutriente vai parar nos rios e, consequentemente, escoa para o oceano. Outra causa é a falta de sistema de esgoto urbano adequado. Sem o tratamento apropriado, os resíduos e microrganismos, que também têm esse elemento químico, também chegam às águas. Tudo isso pode estar favorecendo o cinturão de sargaço no Atlântico.
Video: Alice Martins Morais
“Com esse estudo, conseguimos destacar a necessidade de uma gestão mais eficaz dos recursos e práticas agrícolas", afirma Mascarenhas. O tema, segundo a pesquisadora, exige um diálogo maior entre os diferentes setores para se chegar a uma solução. “As concentrações do sargaço afetam a diversidade marinha e implicam no turismo, então é importante fazer esse monitoramento contínuo e a gestão dos recursos hídricos”, constata.
Esse esforço de pesquisa e políticas públicas, na sua opinião, deve ser transfronteiriço, porque o que começa na América do Sul segue pela corrente marítima e chega a dominar praias em outros países, como Trinidad e Tobago, que têm muito de sua economia baseada no turismo, e até no México, onde esforços para combater o crescimento dessa alga resultaram em soluções baseadas na natureza.